Opinião
Sob o idioma, a pulsação
Por Rebobinados · Publicado em 20 de agosto de 2026

Ilustración: Rebobinados
Em janeiro de 1985, enquanto centenas de milhares cantavam todas as noites no Rio de Janeiro, o Brasil elegia seu primeiro presidente civil em vinte e um anos. As duas coisas aconteciam ao mesmo tempo, e não por acaso. O país saía de uma ditadura militar que se arrastava desde 1964, e o primeiro gesto de um povo que volta a respirar depois de tanto tempo sem ar foi, como não, fazer uma festa. A maior que o continente já tinha visto.
Quem a sonhou foi um publicitário, Roberto Medina, com uma ideia que a muitos soou como delírio: juntar um milhão e meio de pessoas para ouvir rock. Levantou do nada um recinto em Jacarepaguá, batizou-o de Cidade do Rock, duzentos e cinquenta mil metros quadrados de barro e palco. De 11 a 20 de janeiro, dez dias, passou por ali boa parte do melhor do rock do planeta: Queen com Freddie Mercury no auge, AC/DC, Iron Maiden, Ozzy, Scorpions, Yes, Rod Stewart. Um milhão e meio de pessoas no total. Medina resumiu sem modéstia: não era um projeto musical, era um movimento nacional.
Até 1985, a América Latina não existia no mapa do rock
É preciso entender o que aquilo significava, porque hoje, com festivais em cada esquina, perde-se a dimensão. Até 1985, a América Latina não existia no mapa do rock. As bandas grandes faziam Estados Unidos, Europa, Japão, e deste lado do mundo quase nunca passavam: uma visita do Queen em 81, outra do Van Halen em 83, e pouco mais. O continente era um ponto cego, um lugar aonde ninguém levava um grande show. O Rock in Rio virou isso de uma vez. Demonstrou que aqui embaixo também dava, que havia um público enorme, faminto, entregue, esperando desde sempre. O que hoje chamamos de megaevento nasceu ali, naquele barro.
E houve um gesto que foi mais do que produção. Pela primeira vez, artistas brasileiros dividiram aquele palco com os gigantes de fora: Gilberto Gil, Rita Lee, os Paralamas do Sucesso. Não foram pano de fundo; foram parte do cartaz. Um país que saía do silêncio subia no mesmo tablado que seus ídolos importados e dizia, sem dizer: nós também soamos.
O Brasil fala outro idioma, e é dos nossos
E há algo que a mim segue dando voltas, quarenta anos depois. O Brasil fala outro idioma. Não é um detalhe menor: enquanto quase toda a América Latina ficou falando espanhol, o Brasil ficou no português, por uma partilha colonial de séculos atrás. No papel é outro país, outra língua, quase outra coisa. Um chileno e um brasileiro, postos a conversar, não se entendem por completo. E, no entanto, o Brasil se sente latino. Profundamente. A gente o escuta e sabe que é dos nossos, mesmo sem entender as palavras.
Por quê? Porque latino nunca foi um idioma. É outra coisa, mais funda e mais difícil de nomear: uma maneira de habitar o corpo, uma história compartilhada de conquistas, ditaduras e resistência, um calor, uma forma de viver a música não como espetáculo, mas como necessidade. E aí está a pista: o que une um continente partido em duas línguas não são as palavras. É a pulsação. O espanhol e o português nos separam na superfície; embaixo corre o mesmo ritmo.
A música é o idioma que existe debaixo do idioma
Por isso um festival, e não um discurso nem um tratado, foi o lugar onde o continente se reconheceu. Porque a música é o idioma que existe debaixo do idioma. Um brasileiro cantando Queen em inglês e um chileno cantando a mesma coisa do outro lado da cordilheira não compartilhavam uma só palavra, e compartilhavam tudo: o mesmo corpo movido pela mesma batida. O Rock in Rio foi, sem se propor a isso, o momento em que a América do Sul se escutou a si mesma e descobriu que soava parecido, apesar de falar diferente.
Quarenta anos depois
Quarenta anos depois, o que fica não é a indústria do megaevento que Medina inaugurou, embora ela também seja sua herança. O que fica é a prova de algo: que ser latino se escuta antes de se falar. Que um continente pode estar dividido por duas línguas coloniais e ser, por baixo, uma só pulsação. O Brasil não fala como nós, e é dos nossos como poucos, porque nos reconhecemos onde de verdade importa: não no que dizemos, mas em como o dançamos.
Voltar a 1985 é, para isso, voltar a escutar mais longe. A um tempo em que um país recém-saído da escuridão fez uma festa tão grande que o continente inteiro, sem querer, se ouviu junto pela primeira vez. E entendeu, ainda que não soubesse como dizê-lo, que o idioma que de verdade o unia não se traduzia. Sentia-se.
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