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Década 60s · Ritmo soul

Etta James

A mala na porta

Por Rebobinados · Publicado em 6 de setembro de 2026

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Etta James: A mala na porta

Ilustración: Rebobinados

"At Last" é, para milhões de pessoas, a canção do amor realizado.

Colocam quando casam. Quando enfim encontram a pessoa. Quando o amor chega depois da longa espera.

É puro consolo. Pura plenitude.

A vida da mulher que a tornou imortal foi exatamente o contrário.

De onde ela vinha

Jamesetta Hawkins nasceu em Los Angeles em 25 de janeiro de 1938. Sua mãe, Dorothy, tinha catorze anos e não a criou.

Nunca soube com certeza quem foi seu pai. Acreditava que era um jogador de sinuca famoso, que conheceu brevemente em 1987, sem nunca chegar a confirmar.

Cresceu em casas alheias, passando de umas mãos a outras, marcada pelo abandono desde o começo.

Adulta, lutou durante décadas contra a dependência de heroína. Isso a levou à cadeia em 1969, por violar uma condicional. Seu marido, Artis Mills, assumiu uma detenção por porte e cumpriu dez anos. Aos trinta e seis passou dezessete meses internada num hospital psiquiátrico.

A ironia

A voz que deu ao mundo a canção do amor perfeito pertencia a uma mulher que passou boa parte da vida procurando, sem encontrar de todo, a calma que cantava.

E é justamente isso que se ouve.

Quando Etta James canta "at last" —"enfim"— não canta a partir da felicidade fácil. Canta a partir da fome de quem sabe perfeitamente o que é não ter.

Por isso soa tão verdadeiro. Não estava fingindo a emoção: conhecia do lado da falta.

Uma correção sobre as paradas

Convém dizer algo que costuma ser exagerado, porque deixa a história melhor e não pior.

"At Last" não foi um sucesso arrasador. O compacto foi lançado em 15 de novembro de 1960 e chegou ao posto quarenta e sete da parada geral. Na de rhythm and blues foi segunda.

Nem sequer é uma canção dela nem da época dela: foi escrita por Mack Gordon e Harry Warren para o filme "Sun Valley Serenade", de 1941, e popularizada por Glenn Miller.

Sua condição de clássico absoluto é muito posterior. Entrou para o Hall da Fama do Grammy em 1999 e para o Registro Nacional de Gravações em 2009.

Ou seja: a canção que hoje toca em todos os casamentos do mundo foi, em sua época, um sucesso mediano de uma cantora de vinte e dois anos, com uma versão de um tema de vinte anos antes. Levou meio século para virar o que é.

Todo o resto

Reduzi-la a "At Last" seria injusto, porque ela podia fazer qualquer coisa.

"I'd Rather Go Blind" é uma das canções mais desoladas já gravadas. "Tell Mama" é puro impulso. "Something's Got a Hold on Me" é euforia pura de igreja.

Blues, soul, rhythm and blues, jazz, gospel, rock. Não mudava de estilo: atravessava todos com a mesma voz.

Janis Joplin a admirava e a cantava ao vivo. Beyoncé a interpretou no cinema em 2008.

Ganhou vários Grammy, incluindo um pelo conjunto da obra em 2003. Morreu em 20 de janeiro de 2012, em Riverside, aos setenta e três anos, por complicações de leucemia. Tinha também alzheimer, diagnosticado em 2008.

O que é preciso lembrar

Etta James é a prova de que a emoção numa voz não se atua: se paga.

Coloque "At Last", "I'd Rather Go Blind" ou "Tell Mama" e vai ouvir um instrumento capaz de tudo —a doçura, a fúria, a desolação— manejado por alguém que sabia do que estava falando em cada caso.

E quando ouvir "enfim", lembre-se de que quem canta isso passou a vida inteira esperando algo que quase nunca chegou.

Lembre dela assim: não como a da canção dos casamentos, mas como a que cantou o amor realizado melhor do que ninguém justamente porque o conhecia de fora.


Fontes

Etta James, nome verdadeiro Jamesetta Hawkins, nascida em Los Angeles em 25 de janeiro de 1938 e falecida em Riverside, Califórnia, em 20 de janeiro de 2012, aos setenta e três anos, por complicações de leucemia; tinha sido diagnosticada com alzheimer em 2008. Sua mãe, Dorothy Hawkins, tinha catorze anos quando ela nasceu e não a criou; nunca teve confirmação da identidade do pai, embora acreditasse que fosse o jogador de sinuca Rudolf "Minnesota Fats" Wanderone, que conheceu brevemente em 1987. Lutou durante décadas contra a dependência de heroína; em 1969 foi presa por violar uma condicional, e seu marido Artis Mills cumpriu dez anos depois de assumir uma detenção por porte. Aos trinta e seis anos passou dezessete meses internada num hospital psiquiátrico. "At Last" foi composta por Mack Gordon e Harry Warren para o filme "Sun Valley Serenade" (1941) e popularizada pela orquestra de Glenn Miller; a versão de Etta James foi lançada como compacto em 15 de novembro de 1960 e alcançou o posto quarenta e sete da Billboard Hot 100 e o segundo da parada de rhythm and blues. Convém precisar isso porque com frequência lhe são atribuídas posições muito superiores. A gravação ingressou no Hall da Fama do Grammy em 1999 e no Registro Nacional de Gravações da Biblioteca do Congresso em 2009. Outras canções destacadas: "I'd Rather Go Blind", "Tell Mama" e "Something's Got a Hold on Me". Janis Joplin a admirava e a interpretava ao vivo; Beyoncé a encarnou no filme "Cadillac Records" (2008). Obteve vários prêmios Grammy, entre eles o do conjunto da obra em 2003, e ingressou no Hall da Fama do Rock and Roll em 1993. Texto de autoria externa, editado e verificado para a Rebobinados. As interpretações sobre o sentido de sua obra são oferecidas como leitura do autor. Não se reproduzem letras de canções por direitos autorais. Dados recolhidos da Wikipédia, Billboard, da Biblioteca do Congresso e outras coberturas.

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