Kasabian
O comunicado chegou um dia antes
Por Rebobinados · Publicado em 1 de outubro de 2026

Ilustración: Rebobinados
A versão que circula sobre o fim de Tom Meighan no Kasabian tem a ordem invertida, e a ordem é exatamente o que importa. Ele não saiu da banda depois de se declarar culpado: a banda anunciou sua saída em 6 de julho de 2020 falando de "acordo mútuo" e "problemas pessoais", sem mencionar os fatos, e no dia seguinte, 7 de julho, ele se declarou culpado de agredir sua companheira. Vinte e quatro horas separam o eufemismo do processo judicial. O Kasabian passara quinze anos sendo a banda mais fanfarrona do rock britânico, herdeira direta do peito estufado do Oasis, e o que a definiu no fim não foi um riff, e sim um comunicado escrito um dia antes da hora. O resto da história — o nome tirado de um julgamento por assassinato, oito números um seguidos, o motor criativo que sempre estivera em outra cadeira — também é mais concreto do que se costuma contar.
Leicester, Saracuse e um nome tirado do caso Manson
O grupo se formou em Leicester em 1997 e no começo se chamava Saracuse. A formação original era Tom Meighan na voz, Sergio Pizzorno na guitarra, Chris Karloff também na guitarra e nos teclados, e Chris Edwards no baixo. Ian Matthews entrou na bateria em 2004, o ano do primeiro disco, e Karloff ficou fora em 2006.
O nome foi escolhido por Karloff e não tem nada de inventado: ele o encontrou lendo sobre Charles Manson. Linda Kasabian foi a integrante daquele grupo que dirigia o carro nas noites dos crimes de 1969 e que depois testemunhou contra Manson no julgamento, em troca de imunidade. Ou seja: uma banda de rock de estádio de Leicester se chama como a testemunha-chave de um caso de assassinato na Califórnia. O dado é pouco mencionado, e explica bastante do tipo de atmosfera que o grupo buscava.
O som deles também não era o de seus contemporâneos. Enquanto o indie britânico de 2004 girava em torno da guitarra nervosa do Franz Ferdinand, o Kasabian montava faixas sobre loops pesados e repetitivos, com um pé no rock e outro na pista, mais perto do método do The Prodigy do que de seus vizinhos de cena. O arquiteto disso foi Pizzorno, autor da maioria das canções desde o primeiro dia.
"Empire" e "Fire" não são do mesmo disco
Vale separar dois títulos que quase sempre aparecem juntos e errados. O disco de estreia homônimo, de 2004, trouxe "Club Foot", "L.S.F." e "Processed Beats", e fixou a marca da casa: percussão hipnótica, vozes de torcida, riffs que funcionavam melhor em um recinto grande do que em um carro.
"Empire" é a canção que dá título ao segundo álbum, Empire, de 2006, o disco que os instalou como atração principal. "Fire", em troca, é de West Ryder Pauper Lunatic Asylum, de 2009, que chegou ao número um no Reino Unido e foi indicado ao Mercury Prize daquele ano sem ganhá-lo. São três anos e dois discos de distância, e "Fire" é a que acabou sendo usada em transmissões esportivas e estádios de meia Europa.
Entre um e outro ficou claro o reparto interno. Meighan era o frontman, o que sustentava o contato com as primeiras filas e fazia um festival parecer uma partida. Pizzorno escrevia, produzia, escolhia o rumo de cada disco e cantava partes desde o começo. A imprensa costumava descrevê-los como uma dupla equilibrada; os créditos não diziam isso.
6 de julho, e depois o 7
Em 6 de julho de 2020 o Kasabian comunicou que Meighan deixava o grupo. O texto falava de um acordo mútuo e de que o cantor precisava cuidar de problemas pessoais. Não dizia nada mais, e o que vinha no dia seguinte já estava agendado em um tribunal. O que segue inclui fatos provados de violência contra a companheira; no Chile, o Fone Orientação do SernamEG, o 1455, atende durante todo o dia quem estiver vivendo algo assim.
Em 7 de julho de 2020, no tribunal de magistrados de Leicester, Meighan se declarou culpado de agressão com golpes contra sua então companheira, Vikki Ager, por um episódio ocorrido em 9 de abril daquele ano. Ele havia negado a acusação antes e mudou sua declaração depois de ver as imagens da câmera de segurança. A sentença foi de 200 horas de trabalho não remunerado dentro de uma ordem comunitária de dezoito meses. Não recorreu.
A banda falou depois, e com dureza: disse que a tinham feito acreditar que Meighan daria a cara e assumiria publicamente o ocorrido, e que seu silêncio enganou muita gente que os seguia. O eufemismo do comunicado lhes custou credibilidade durante meses, porque ficou lido como um encobrimento ainda que a sequência tenha sido de descoordenação. Meighan, por sua parte, falou depois de alcoolismo e de um diagnóstico de déficit de atenção, sempre esclarecendo que explicavam seu estado mas não justificavam o que fez. Casou-se com Ager em 13 de julho de 2021.
Oito números um seguidos
O que se costuma resumir como "a banda seguiu adiante" é verificável e bem mais contundente. Com Pizzorno na voz, o Kasabian publicou The Alchemist's Euphoria em 2022, Happenings em 2024 e Act III em 4 de setembro de 2026. Os três chegaram ao número um no Reino Unido.
Essa sequência deixa o total em oito álbuns consecutivos no topo da lista britânica, de Empire em 2006 até Act III no mês passado. É o argumento mais claro a favor de uma leitura que antes era discutível e hoje não é: o motor do Kasabian estava no guitarrista que escrevia as canções, e a troca de cantor não moveu a agulha comercial nem um posto.
O que é preciso lembrar
O Kasabian devolveu ao rock britânico uma forma de arrogância festiva que tinha ficado nos anos noventa, e fez isso com um método próprio: loops pesados, refrões de arquibancada e uma ambição de recinto enorme que Pizzorno desenhou disco a disco. "Club Foot", "Empire" e "Fire" seguem funcionando onde foram pensadas, que é no meio de trinta mil pessoas saltando.
Mas a lição de sua história está nessas vinte e quatro horas de julho de 2020. Uma banda escolheu a linguagem suave — "acordo mútuo", "problemas pessoais" — para não nomear uma agressão que um tribunal daria por provada na manhã seguinte, e o custo dessa escolha foi maior que o de ter dito a verdade. Se você está vivendo violência por parte do parceiro, no Chile o 1455 do SernamEG orienta de graça e vinte e quatro horas por dia; e se o que aparece ao fundo é o álcool, no Brasil você pode ligar para o CVV, no 188, disponível 24 horas, e no Chile o 1412 do SENDA atende de forma anônima. Nomear as coisas pelo seu nome não arruma a vida de ninguém, mas tê-las disfarçado também não serviu a ninguém aqui.
Fontes
O Kasabian é uma banda britânica formada em Leicester em 1997, inicialmente sob o nome Saracuse, integrada por Tom Meighan (voz), Sergio "Serge" Pizzorno (guitarra, composição), Chris Karloff (guitarra e teclados) e Chris Edwards (baixo); Ian Matthews entrou na bateria em 2004 e Chris Karloff deixou o grupo em 2006. O nome provém de Linda Kasabian, integrante do grupo liderado por Charles Manson que dirigiu o veículo durante os crimes de 1969 e depôs como testemunha principal no julgamento; foi escolhido por Chris Karloff a partir de leituras sobre o caso. Seu álbum de estreia homônimo (2004) incluiu "Club Foot", "L.S.F." e "Processed Beats". "Empire" (2006) dá título ao segundo álbum e contém a canção homônima; "Fire" pertence a "West Ryder Pauper Lunatic Asylum" (2009), que alcançou o número um no Reino Unido e foi indicado ao Mercury Prize daquele ano sem obtê-lo. Em 6 de julho de 2020 a banda anunciou a saída de Tom Meighan em um comunicado que a atribuía a um acordo mútuo e a problemas pessoais, sem se referir à causa judicial em curso. Em 7 de julho de 2020, no tribunal de magistrados de Leicester, Meighan se declarou culpado de agressão com golpes contra sua então companheira, Vikki Ager, por fatos ocorridos em 9 de abril de 2020; havia negado a acusação e modificou sua declaração depois da exibição de imagens de circuito fechado de televisão. Foi sentenciado a 200 horas de trabalho não remunerado no âmbito de uma ordem comunitária de dezoito meses, e não apresentou recurso. A banda declarou posteriormente que a tinham feito acreditar que Meighan assumiria publicamente os fatos. Meighan atribuiu sua situação de então ao alcoolismo e a um diagnóstico de transtorno de déficit de atenção, sem apresentá-los como justificativa, e contraiu matrimônio com Vikki Ager em 13 de julho de 2021. Com Pizzorno como vocalista, a banda publicou "The Alchemist's Euphoria" (2022), "Happenings" (2024) e "Act III" (4 de setembro de 2026), os três número um no Reino Unido, completando oito álbuns consecutivos no primeiro posto dessa lista desde 2006. Perfil elaborado para a Rebobinados com verificação de dados; as interpretações sobre o sentido de sua obra são oferecidas como leitura do autor. Não se reproduzem letras de canções por direitos autorais. Dados recolhidos da Wikipédia, da BBC, do The Guardian, do Leicester Mercury, da Official Charts Company e de outras coberturas.
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