Rebobinados

A memória viva da música, década por década.

Década 80s · Ritmo pop

Cyndi Lauper

A luva do avesso

Por Rebobinados · Publicado em 8 de setembro de 2026

rebobinado 347 vezes
Cyndi Lauper: A luva do avesso

Ilustración: Rebobinados

Em 1983, "Girls Just Want to Have Fun" parecia uma musiquinha boba de festa.

Cabelo colorido, sintetizadores, um refrão grudento sobre garotas que querem se divertir. Nada mais.

Quarenta anos depois, segue sendo um hino feminista. E a história de como chegou a ser isso é mais interessante, e bem mais incômoda, do que a versão que costuma ser contada.

Quem escreveu o quê

A canção foi escrita por um homem: Robert Hazard, em 1979, que gravou uma demo cantando-a do ponto de vista masculino.

A própria Lauper já descreveu: um cara que se sente sortudo por estar cercado de garotas que querem "se divertir" com ele, duplo sentido incluído.

Convém ser preciso sobre o que ela fez, porque a história é contada em tamanho grande e a realidade é mais sutil. Ela retocou algumas linhas, por sugestão do produtor Rick Chertoff, para tirar o duplo sentido. Não reescreveu a canção.

E há um dado que o relato habitual omite e que muda o sentido da coisa: Lauper nunca recebeu crédito de autoria. Quando disse em entrevistas que a tinha coescrito, Hazard lhe mandou uma carta de cessação e desistência.

Então, onde está a virada?

Em todo o resto. E é enorme.

Está em como ela canta: com uma alegria desafiadora que não pede licença. Está no arranjo. E está, acima de tudo, no clipe, que foi o que transformou a canção em outra coisa.

Naquele vídeo aparecem mulheres de todos os tipos, idades e corpos dançando na rua, e a mãe verdadeira dela fazendo o papel de mãe. A canção deixou de ser um cara olhando umas garotas e passou a ser as garotas se olhando entre si.

O que Lauper fez não foi mudar as palavras. Foi mudar quem as diz e de onde. Numa canção, isso é quase tudo.

O que havia embaixo das cores

A imagem —o cabelo laranja, a roupa de brechó, as pulseiras de plástico— fez com que muita gente a tratasse como uma excentricidade passageira.

No mesmo disco, "She's So Unusual", estava "Time After Time".

Essa, sim, ela coescreveu, com Rob Hyman. Foi seu primeiro número um nos Estados Unidos, em 9 de junho de 1984, e desde então nunca parou de ser regravada. Miles Davis a gravou em 1985 e a tocava ao vivo com frequência; Lauper disse dele que o jeito como ele a tocava era pura mágica.

Aí está o alcance completo: o hino de festa mais grudento da década e, na faixa seguinte, uma balada que parte o coração.

A sessão de "We Are the World"

Em janeiro de 1985, as maiores estrelas dos Estados Unidos se juntaram num estúdio para gravar "We Are the World", com regência de Quincy Jones.

Lauper estava entre os escolhidos, e cantou um trecho da ponte ao lado de Michael Jackson, Huey Lewis e Kim Carnes.

Daquela noite vem uma história que resume o personagem dela, e que tem um protagonista chileno. O engenheiro de som, Humberto Gatica, detectava um ruído estranho no canal dela. Revisou o microfone: perfeito. O problema eram os brincos e as pulseiras, que tilintavam quando ela cantava. Ela foi tirando tudo e deixou num monte no chão do estúdio.

Naquele abril, a revista Life pôs na capa e na contracapa sete figuras da música estadunidense. Ela era uma delas: ao lado de Michael Jackson, Willie Nelson, Lionel Richie, Bob Dylan, Tina Turner e Bruce Springsteen.

O ativismo, com as datas no lugar

Seu compromisso com os direitos da população LGBT vem dos anos oitenta, quando não era nem popular nem confortável. Sua irmã é lésbica, e isso a envolveu desde cedo. "True Colors", de 1986, virou um hino de aceitação que segue tocando em passeatas.

A organização veio bem depois: o True Colors Fund, hoje True Colors United, dedicado a jovens LGBT em situação de rua, é de 2008. Convém separar as duas coisas, porque costumam ser contadas como uma só.

Em 2013 ganhou o Tony de melhor trilha original por "Kinky Boots", e foi a primeira mulher a vencer sozinha. Tem também um Emmy. Em novembro de 2025 entrou para o Hall da Fama do Rock and Roll.

O que é preciso lembrar

Cyndi Lauper é a prova de que uma canção não é só a sua letra.

Coloque "Girls Just Want to Have Fun" e depois "Time After Time" e vai ouvir a mesma pessoa fazendo duas coisas que quase ninguém faz bem ao mesmo tempo.

E lembre-se do que ela de fato fez com a primeira. Não a reescreveu: cantou de outro jeito, com outra cara e de outro lugar, até que a canção deixou de significar o que seu autor quis dizer.

Lembre dela assim: não como a garota estranha de cabelo colorido, mas como a que provou que uma intérprete pode virar uma canção inteira do avesso sem mudar uma palavra.


Fontes

Cynthia Ann Stephanie Lauper, nascida no Brooklyn, Nova York, em 22 de junho de 1953 e criada em Ozone Park, no Queens; segue viva e em atividade. "Girls Just Want to Have Fun" foi composta por Robert Hazard em 1979, que gravou uma demo interpretando-a de uma perspectiva masculina. Convém precisar o alcance da intervenção de Lauper: ela modificou algumas linhas por sugestão do produtor Rick Chertoff para eliminar o duplo sentido, mas não reescreveu a canção nem recebeu crédito de autoria; quando declarou publicamente tê-la coescrito, Hazard lhe enviou uma carta de cessação e desistência. A transformação do sentido da canção se deu pela interpretação, pelo arranjo e sobretudo pelo videoclipe. O compacto foi lançado em 17 de outubro de 1983 e chegou ao número dois da Billboard Hot 100, sendo número um em dez países. "Time After Time", do mesmo álbum, "She's So Unusual" (1983), foi coescrita por Lauper com Rob Hyman e chegou ao número um da Hot 100 em 9 de junho de 1984, por duas semanas; Miles Davis a gravou em "You're Under Arrest" (1985). Participou da gravação de "We Are the World" em 28 de janeiro de 1985, com regência de Quincy Jones, cantando um trecho da ponte ao lado de Michael Jackson, Huey Lewis e Kim Carnes; o engenheiro de som chileno Humberto Gatica identificou como fonte de um ruído na gravação os brincos e as pulseiras da artista. Em abril de 1985 a revista Life dedicou capa e contracapa a sete figuras da música estadunidense: Michael Jackson, Willie Nelson, Lionel Richie, Bob Dylan, Cyndi Lauper, Tina Turner e Bruce Springsteen. Seu ativismo pelos direitos LGBT começou nos anos oitenta; "True Colors" é de 1986. A organização True Colors Fund, hoje True Colors United, foi fundada em 2008. Obteve o prêmio Tony de melhor trilha original por "Kinky Boots" em 2013, sendo a primeira mulher a vencer sozinha, além de um prêmio Emmy; recebeu sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood em 2015 e ingressou no Hall da Fama do Rock and Roll em 8 de novembro de 2025. David Bowie, Lady Gaga, Quincy Jones e Michael Jackson têm perfil próprio nesta série. Texto de autoria externa, editado e verificado para a Rebobinados. As interpretações sobre o sentido de sua obra são oferecidas como leitura do autor. Não se reproduzem letras de canções por direitos autorais. Dados recolhidos da Wikipédia, Songfacts, Rolling Stone e outras coberturas.

Continue rebobinando

Bruno Mars: Onze nomes nos créditos

10s

pop

Bruno Mars

Onze nomes nos créditos

"Uptown Funk" saiu em 10 de novembro de 2014 com seis compositores e hoje tem onze. Em fevereiro de 2015 a editora do The Gap Band reclamou por "Oops Up Side Your Head" no sistema de copyright do YouTube —nunca houve processo— e em 28 de abril foram acrescentados cinco nomes, com 17 % da edição. Aconteceu semanas depois do veredicto de "Blurred Lines", e a canção estava há 14 semanas no número um.

André Rieu: Não era da suíte de jazz

00s

pop

André Rieu

Não era da suíte de jazz

A valsa com que André Rieu chegou a meio mundo não é da Suíte para orquestra de jazz nº 2 de Shostakovich: é da Suíte para orquestra de variedades, que o compositor não montou, e nasceu em 1956 como música para um filme soviético sobre colonos no Cazaquistão. O erro vem de uma errata do volume 10 das obras completas (Muzyka, Moscou, 1984), corrigida só em 2001. E o título "A segunda valsa" foi inventado por sua mulher, porque o verdadeiro não vendia.

Daniela Mercury: Tirou o bairro da canção

90s

pop

Daniela Mercury

Tirou o bairro da canção

"O Canto da Cidade" foi escrita por Tote Gira, um compositor do Nordeste de Amaralina que gravou a demo num cassete emprestado marcando o ritmo na porta de uma geladeira; a equipe de Mercury quase jogou a fita fora. Ela divide o crédito porque apagou as referências ao Pelourinho para que a canção servisse em todo o Brasil. O disco, de 20 de setembro de 1992, vendeu mais de 2 milhões de cópias e nacionalizou o axé. Mas não o inventou: o nome era um insulto de um jornalista em 1987.

Rebobine com a gente

Comentários · 0

Ninguém comentou ainda. Abra a conversa.