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Década 90s · Ritmo pop

Daniela Mercury

Tirou o bairro da canção

Por Rebobinados · Publicado em 11 de outubro de 2026

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Daniela Mercury: Tirou o bairro da canção

Ilustración: Rebobinados

A demo da canção mais famosa do carnaval brasileiro foi gravada num cassete emprestado, e o ritmo era marcado por uma mão batendo na porta de uma geladeira. Quem a fez foi Tote Gira —Antonio Jorge Souza dos Santos, nascido em 1961 no Nordeste de Amaralina, um bairro de Salvador—, e quando a fita chegou à equipe de Daniela Mercury quase a jogaram no lixo. Alguém a colocou para tocar. Ela ouviu, quis na hora e pediu permissão para mexer numa coisa.

Essa coisa é o artigo inteiro. Gira havia escrito uma letra localíssima, com referências ao Pelourinho, o centro histórico de Salvador. Mercury as apagou: tirou o bairro da canção para que a canção funcionasse em Fortaleza, em São Paulo e em Porto Alegre do mesmo jeito que na Bahia. Por isso a ficha oficial de "O Canto da Cidade" não diz só Tote Gira: diz Mercury e Tote Gira. E esse é, literalmente e não em sentido figurado, o gesto pelo qual o axé deixou de ser uma música baiana e virou uma música brasileira.

O cassete que quase acabou no lixo

Tote Gira não era amador: tem mais de trezentas e cinquenta composições e cerca de vinte discos gravados, e havia assinado "Romance do Ilê" para o bloco afro Ilê Aiyê em 1988. O que não tinha era um canal. Um compositor do Nordeste de Amaralina com uma demo caseira e uma percussão improvisada contra um eletrodoméstico não entra numa gravadora pela porta da frente: entra por uma fita que quase nunca chegou a tocar. Mercury já descreveu o tema como uma canção sobre a discriminação, uma canção da negritude falando de si mesma.

Gravou em julho de 1992 e o single saiu em catorze de agosto. Foi a terceira canção mais ouvida do Brasil naquele ano, atrás de "The One", de Elton John, e de "End of the Road", do Boyz II Men, segundo a contagem do historiador musical Arthur Menezes. Levou o Prêmio Sharp de melhor canção de 1992 e o Troféu Imprensa de melhor canção de 1993.

O álbum O Canto da Cidade chegou em vinte de setembro de 1992, pela Sony Music Brasil e pela Epic, produzido por Liminha: doze faixas, quarenta e dois minutos, disco de diamante da Pro-Música Brasil, mais de dois milhões de cópias só no Brasil, quatro singles número um e o primeiro lugar da lista brasileira Nopem em 1993. Em março de 1993 a Epic o lançou na América do Norte e na Europa. E a lista de autores do disco diz sozinha de onde ele vinha: Caetano Veloso e Chico Buarque na terceira faixa, Herbert Vianna, dos Os Paralamas do Sucesso, em "Só Pra Te Mostrar", Carlinhos Brown em "Rimas Irmãs", Moraes Moreira em "Monumento Vivo". Ela assina três temas de doze. O resto é um mapa da música baiana daqueles anos, cantado por quem tinha o microfone.

Antes do disco, um meio-dia na Paulista

O que a lançou, de todo modo, não foi o disco: foi um show de graça na hora do almoço. Em 1992, dentro de um projeto municipal chamado "Som do Meio Dia" —artistas jovens, às sextas ao meio-dia—, Mercury tocou no vão livre do MASP, na Avenida Paulista, em São Paulo. Juntaram-se entre vinte e trinta mil pessoas, o público transbordou o vão e invadiu a avenida, e ela teve de interromper o show aos quarenta minutos por risco de estrutura. Ela compara aquilo com o desfile da Apoteose: era o MASP inteiro cercado de gente, disse, invadindo a Paulista. A Sony Music a contratou depois daquilo.

Também não vinha do nada. Começou a cantar em bares de Salvador aos quinze anos, por volta de 1980, com Elis Regina como referência; deixou a música por falta de trabalho, entrou em 1984 na licenciatura da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia e se formou em dança; deu aulas de balé clássico, jazz e dança moderna. Voltou ao canto em 1986 como corista dos blocos de carnaval de Salvador —as fontes não concordam sobre quais—, em 1988 entrou como corista na banda de Gilberto Gil e gravou dois discos como vocalista da Companhia Clic. Seu primeiro disco solo é de 1991, no selo independente Eldorado, e seu single "Swing da Cor" —de Luciano Gomes, com o Olodum na percussão— já foi número um no Brasil. Ou seja: o fenômeno de 1992 não inaugura a sequência. Confirma.

O axé era um insulto de jornalista

Aqui é preciso desarmar a frase que se repete sem pensar. Daniela Mercury não inventou o axé. O gênero já existia e já tinha nome: o hit fundador é "Fricote", de Luiz Caldas, de 1985, com o ritmo "deboche" criado por Alfredo Moura e Carlinhos Brown e gravado no estúdio WR, no bairro da Graça, em Salvador; o samba-reggae que lhe dá a espinha dorsal foi desenvolvido por percussionistas como Neguinho do Samba e Mestre Jackson nos blocos afro —Ilê Aiyê, Olodum, Malê Debalê, Muzenza, Ara Ketu—. E o termo "axé music" foi cunhado pelo jornalista baiano Hagamenon Brito em 1987, de forma pejorativa, para nomear aquela música dançante com pretensões internacionais. A palavra axé vem do candomblé e significa energia positiva: é uma saudação. O insulto acabou no calendário oficial brasileiro: em oito de agosto de 2025, a Lei 15.189 criou o Dia Nacional da Axé Music e o fixou em dezessete de fevereiro, data da estreia de "Fricote" num domingo de carnaval. O que Mercury fez não foi inventar o gênero: foi nacionalizá-lo e exportá-lo.

E convém explicar o que é um trio elétrico, porque o leitor chileno não tem por que saber. É um caminhão-palco: um veículo adaptado com equipamento de som e caixas, com a banda tocando em cima, percorrendo a rua. Nasceu de um problema técnico. Nos anos quarenta, Dodô —Adolfo Nascimento— e Osmar Álvares Macedo construíram o "pau elétrico", o primeiro instrumento de cordas eletrificado que não realimentava o microfone. E no carnaval de 1950 o levaram às ruas de Salvador sobre um Ford de 1929 apelidado "Fobica", com os instrumentos ligados à bateria do carro. Eram dois: chamavam-se "Dupla Elétrica". O trio é de 1951, quando trocaram para uma picape Chrysler Fargo e somaram Temístocles Aragão no "triolim", uma guitarra tenor eletrificada; em 1952 já montavam oito caixas de som e geradores extras. Hoje os equipamentos vão de cem a mais de quinhentos quilowatts e desde 1992 viajam sobre semirreboques. Atrás do trio marcha um bloco identificado pela cor do abadá, a camiseta, e separado da rua por cordas: quem paga vai dentro, e quem não paga dança fora, e isso é a pipoca. Daí o nome do bloco com que Mercury desfilou no carnaval de Salvador de fevereiro de 2026, em Campo Grande e no circuito Barra-Ondina: "Pipoca da Rainha". E há um detalhe que fecha o círculo: Armandinho Macedo, o filho de Osmar, assina "Exótica das Artes" em O Canto da Cidade.

O sobrenome é o da mãe

O "Mercury" não é um nome artístico inventado, e é preciso dizer porque todo mundo supõe o contrário. Nasceu Daniela Mercuri de Almeida no Hospital Português de Salvador em vinte e oito de julho de 1965, filha de Antônio Fernando de Abreu Ferreira de Almeida, mecânico industrial português que emigrou para o Brasil aos onze anos, e de Liliana Mercuri, assistente social de ascendência italiana. Mercuri é o sobrenome da mãe. O único artístico é a grafia: trocou o "i" final por um "y" porque lhe pareceu esteticamente mais bonito. Freddie Mercury nasceu Farrokh Bulsara em Zanzibar e adotou esse sobrenome ele mesmo no começo dos anos setenta. Não há parentesco, nem homenagem, nem piscada. É coincidência.

Outra atribuição que convém arrumar é a de Carlinhos Brown, e não porque sobre: porque está mal colocada. "Nobre Vagabundo" não é de Brown, é de Márcio Mello, autor único; foi single em 1997, número um no Brasil, e seu clipe —de Gringo Cardia, rodado em outubro de 1996 com um terreno vazio recriado em estúdio, figurantes cobertos de barro e trios elétricos— ganhou o prêmio de melhor fotografia no MTV Video Music Brasil de 1997. O de Brown é mais sólido do que uma vaga proximidade baiana: ele assina um tema em cada um dos três discos-chave dela. "Rimas Irmãs" em O Canto da Cidade, "Folia de Rei" em Música de Rua, de 1994 —duas vezes platina, com dois números um— e "Rapunzel" em Feijão com Arroz, de 1996. "Rapunzel" saiu como single em 1997, foi número um no Brasil e disco de ouro na França com mais de duzentas e cinquenta mil cópias: é o maior sucesso internacional de todo o catálogo dela, e é de Carlinhos Brown.

O que custou dizer isso

No fim de 2005, Mercury —católica praticante— ficou fora do Concerto de Natal do Vaticano, e não foi rumor de corredor: em três de dezembro o padre jesuíta Giuseppe Bellucci, organizador do evento, explicou por escrito à Rádio Vaticano. Não a excluíam por suas convicções sobre os anticoncepcionais, ainda que não coincidissem com as da Igreja, mas porque ela havia anunciado que durante o concerto promoveria abertamente o uso do preservativo para combater a aids, em apoio a uma campanha do Ministério da Saúde do Brasil dirigida a jovens.

O outro episódio tem uma ordem de datas que importa. Em três de abril de 2013 anunciou nas redes sua relação com a jornalista Malu Verçosa. Casaram-se em Salvador em doze de outubro de 2013, as duas de branco. Entre uma data e outra aconteceu algo: a Resolução 175 do Conselho Nacional de Justiça, de catorze de maio de 2013, obrigou todos os cartórios do Brasil a celebrar casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo. Ou seja, quando ela anunciou faltavam quarenta e dois dias para que isso estivesse garantido em todo o país. Ela primeiro, a lei depois.

O custo não foi ela que pagou. Nove dias depois do anúncio, em doze de abril de 2013, Malu Verçosa fez seu último programa na rádio CBN: cancelaram o Salto Alto depois de dois anos e meio no ar. A emissora alegou uma recente reformulação da programação e nunca reconheceu nenhuma relação com o anúncio; a conexão causal é leitura da imprensa, não um fato admitido. Nesse último programa Mercury disse ao vivo que Malu era uma mulher extraordinária e que estava muito orgulhosa de ser mulher dela. Treze anos mais tarde, na Parada LGBTQIAPN+ de São Paulo de sete de junho de 2026, contou ela mesma: que quando se casou, pessoas próximas lhe diziam que ia acabar com sua carreira, e que escolheu pagar para ver.

O político é mais incômodo e é preciso dizer com o matiz exato. Em 2006 Mercury se opôs publicamente à reeleição de Lula —e recebeu por isso acusações de outros artistas que ela negou com veemência—; em 2022 e em 2026 fez campanha por ele. Em primeiro de maio de 2022 se apresentou na Praça Charles Miller, em São Paulo, num ato do Dia do Trabalho financiado pela prefeitura paulistana com cento e setenta mil reais de dinheiro público, dos quais cem mil foram para ela, e durante a apresentação liderou gritos a favor do então pré-candidato e mostrou uma bandeira com o rosto dele. Por aquele show, em 2026 a Justiça de São Paulo aceitou uma ação apresentada pelo deputado estadual Gil Diniz e a transformou em ré: não há sentença, o processo segue aberto e sua defesa sustenta que não houve irregularidade na contratação e que sua manifestação está amparada pela liberdade de expressão. Em paralelo, e desde muito antes, é embaixadora do UNICEF desde 1995, embaixadora do UNAIDS e da UNESCO, e fundou em 2008 o Instituto Sol da Liberdade, cuja caravana itinerante de música alcançou mais de cinquenta mil crianças.

O que é preciso lembrar

Daniela Mercury vendeu mais de onze milhões de discos e colocou vinte e quatro singles no top dez brasileiro, catorze deles em primeiro lugar. Mas a coisa precisa que ela fez, a que mudou o mapa, cabe numa decisão de letrista: tomou uma canção escrita por um compositor de bairro num cassete emprestado e apagou dela o nome do Pelourinho. O que ficou serviu para todo o Brasil. Não inventou o axé —isso foi "Fricote", em 1985, e o nome era um insulto de jornalista—, e também não é a autora de seu maior sucesso internacional, que é de Carlinhos Brown. O que é dela é o ofício de ter tirado uma música de sua província sem diluí-la e o de nunca ter se calado, com fatura: um Concerto de Natal do qual a desconvidaram por escrito, um programa de rádio que sua mulher perdeu e um processo aberto.

E segue. Cirandaia, seu décimo quarto disco de estúdio, saiu em dezessete de outubro de 2025 com Alcione, Dona Onete, Zélia Duncan e Geraldo Azevedo, e o título cruza a ciranda —a dança coletiva do Nordeste— com a inteligência artificial, que é do que o disco fala. Levou-o ao carnaval de Salvador em fevereiro de 2026 e a onze shows em cinco países europeus em julho e agosto, de Arronches a Alcobaça passando por Barcelona, Berlim e o WOMAD britânico. Em doze de novembro de 2026 recebe o Prêmio à Excelência Musical do Latin Grammy.

Quando soar aquela batida de carnaval num idioma que você não entende e uma multidão inteira se mover como uma coisa só, aí está o gesto: uma letra de bairro da qual alguém tirou o bairro de propósito, para que caiba o mundo todo.


Fontes

Daniela Mercury, nascida Daniela Mercuri de Almeida em 28 de julho de 1965 no Hospital Português de Salvador, Bahia, Brasil; cantora, compositora e bailarina. Filha de Antônio Fernando de Abreu Ferreira de Almeida, mecânico industrial português que emigrou para o Brasil aos 11 anos, e de Liliana Mercuri, assistente social de ascendência italiana: o sobrenome artístico é o materno, com o "i" final substituído por "y" por razões estéticas, sem vínculo algum com Freddie Mercury (nascido Farrokh Bulsara, Zanzibar, 5 de setembro de 1946, que adotou esse sobrenome no começo dos anos setenta). As fontes divergem sobre os sobrenomes acrescentados por casamento (Póvoa/Póvoas, do primeiro casamento com Zalther Portela Laborda Póvoas, c. 1984-1996; Verçosa, do terceiro); casamentos documentados: Zalther Portela Laborda Póvoas (c. 1984-1996), Marco Scabia (2009-2012) e a jornalista Malu Verçosa (2013-presente). Filhos: Gabriel Póvoas (3 de setembro de 1985) e Giovana Póvoas (9 de dezembro de 1986); com Malu Verçosa, três filhas, segundo declaração própria de junho de 2026. Define-se como de "sexualidade múltipla" / bissexual. Formação: dança desde os 8 anos; ingressou em 1984 na licenciatura da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA), formou-se em dança e foi professora de balé clássico, jazz e dança moderna. Cantou em bares de Salvador desde os 15 anos (1980). Em 1986 foi corista de blocos de carnaval de Salvador —a Wikipédia em português aponta o bloco Eva, depois Banda Eva, durante dois anos; o Dicionário Cravo Albin indica, em vez disso, o Cheiro de Amor: divergência não resolvida—; em 1988 entrou como corista na banda de Gilberto Gil e gravou dois discos como vocalista da Companhia Clic (Wikipédia em português: 1989-1990; Cravo Albin: 1988 e 1990), com os sucessos "Pega que Oh!" e "Ilha das Bananas". Primeiro disco solo, "Daniela Mercury" (1991, Eldorado), com o single "Swing da Cor", de Luciano Gomes, com participação do Olodum: nº 1 no Brasil. Prêmio Sharp 1991 de melhor revelação feminina regional. Em 1992, dentro do projeto municipal "Som do Meio Dia", fez um show gratuito de 40 minutos no vão livre do MASP, Avenida Paulista, São Paulo, diante de 20.000-30.000 pessoas; o público invadiu a avenida e ela teve de interrompê-lo por risco de estrutura. A Sony Music a contratou depois. O single "O Canto da Cidade" foi lançado em 14 de agosto de 1992 e gravado em julho de 1992; seu autor é Tote Gira (Antonio Jorge Souza dos Santos, n. 1961, Nordeste de Amaralina, Salvador; mais de 350 composições e cerca de vinte discos, autor de "Romance do Ilê" para o Ilê Aiyê em 1988 e de "Melô da Escolinha" para o Harmonia do Samba), que gravou a demo num cassete emprestado marcando o ritmo com uma batucada na porta de uma geladeira; a equipe de Mercury quase descartou a fita. Mercury obteve permissão para modificar a letra, eliminou as referências ao Pelourinho e figura no crédito oficial como "Mercury, Tote Gira". Foi a terceira canção mais ouvida do Brasil em 1992, atrás de "The One", de Elton John, e de "End of the Road", do Boyz II Men, segundo o historiador musical Arthur Menezes; Prêmio Sharp de melhor canção de 1992 e Troféu Imprensa de melhor canção de 1993. O álbum "O Canto da Cidade" foi lançado em 20 de setembro de 1992 (Sony Music Brasil / Epic, produção de Liminha), 12 faixas e 42 minutos, com edição internacional em 23 de março de 1993 (Epic, América do Norte e Europa): disco de diamante da Pro-Música Brasil, mais de 2 milhões de cópias no Brasil e cerca de 3 milhões no mundo segundo a Wikipédia em português (o Dicionário Cravo Albin, mais conservador, dá "mais de um milhão"), 45.000 cópias na Argentina, nº 1 na lista brasileira Nopem em 1993 e quatro singles nº 1. Entre seus autores figuram Caetano Veloso e Chico Buarque ("Você Não Entende Nada / Cotidiano"), Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso ("Só Pra Te Mostrar"), Carlinhos Brown ("Rimas Irmãs"), Armandinho Macedo ("Exótica das Artes"), Durval Lelys, Jorge Portugal e Moraes Moreira ("Monumento Vivo"); "Swing da Cor" não está neste disco. Para os números um brasileiros de 1991-1997 não cabe citar listas Billboard: a Billboard Brasil não existiu até 2009 e a lista de referência daqueles anos era a Nopem. Discografia posterior de estúdio e ao vivo: "Música de Rua" (julho de 1994, Epic/Sony, produção de Liminha; edição norte-americana em 11 de outubro de 1994; 2× platina da Pro-Música Brasil, com os nº 1 "Música de Rua" —de Pierre Onassis e Daniela Mercury— e "O Reggae e o Mar"; inclui "Folia de Rei", de Carlinhos Brown e Alain Tavares, e "Saudade", de Angélique Kidjo), "Feijão com Arroz" (1996, Epic/Sony; 2× platina; edição América do Norte/Europa em 14 de janeiro de 1997; inclui "À Primeira Vista", de Chico César), "Elétrica" (1997), "Tropicália 30 anos" (1997), "Swing Tropical" (1999), "Sol da Liberdade" (18 de abril de 2000, BMG; platina), "Sou de Qualquer Lugar" (setembro de 2001, BMG; ouro), "Eletrodoméstico" (2003), "Carnaval Eletrônico" (10 de junho de 2004), "Clássica" (2005), "Balé Mulato" (outubro de 2005, EMI; ouro), "Balé Mulato Ao Vivo no Farol da Barra" (2006), "O Canto da Cidade – 15 Anos" (2008), "Canibália" (24 de outubro de 2009, Sony), "Canibália: Ritmos do Brasil" (2011), "Daniela Mercury e Cabeça de Nós Todos" (2014), "Vinil Virtual" (27 de novembro de 2015), "O Axé, a Voz e o Violão" (2016), "Perfume" (2020), "Baiana" (2022), "Eu Sou o Carnaval" (2023), "40 Anos de Axé" (2024) e "Cirandaia" (17 de outubro de 2025, Páginas do Mar), seu 14º disco de estúdio, de 12 faixas, com Alcione, Dona Onete, Zélia Duncan e Geraldo Azevedo, sobre o impacto da inteligência artificial, o meio ambiente, o amor e a política; edição ampliada "Cirandaia Luxo" em novembro de 2025. "Nobre Vagabundo" é obra exclusiva de Márcio Mello, não de Carlinhos Brown nem de Mercury: single de 1997, nº 1 no Brasil, com clipe de Gringo Cardia rodado no começo de outubro de 1996 e prêmio de melhor fotografia de videoclipe no MTV Video Music Brasil 1997. "Rapunzel", de Carlinhos Brown e Alain Tavares, foi single em 1997, nº 1 no Brasil e disco de ouro na França com mais de 250.000 cópias. Vendas totais: mais de 11 milhões de discos (Wikipédia em inglês) ou mais de 12 milhões (Wikipédia em português), com 24 singles no top 10 brasileiro e 14 números um. Latin Grammy 2007 de melhor álbum de música regional ou de raízes brasileiras por "Balé Mulato Ao Vivo no Farol da Barra", seu único Latin Grammy competitivo. Shows documentados fora do Brasil: Montreux Jazz Festival, Auditorium Stravinski, em 2 de julho de 1994 e 11 de julho de 1999 (show nº 1422 da base oficial do festival), com registro audiovisual além de Montreux 2002; Rock in Rio III em 12 de janeiro de 2001; Rock in Rio Lisboa em 5 de junho de 2004; turnê Canibália de 7 de agosto de 2009 a 3 de agosto de 2013 por cinco continentes, com datas em Portugal, Argentina, Paris (13 de junho de 2010), Milão (15 de agosto de 2010), Praia (2 de junho de 2010), Estados Unidos (2011: Nova York, Miami, Los Angeles, San Francisco, San Diego), Montevidéu (27 de setembro de 2011), Cidade do México (10-11 de outubro de 2011), Toronto (20 de outubro de 2011), Basileia (10 de novembro de 2011) e Tel Aviv (10 de maio de 2012); atração principal da primeira edição do Montreux Jazz Festival Miami, de 1 a 3 de março de 2024, no The Hangar de Coconut Grove, ao lado de Jon Batiste e Daryl Hall. Não existe registro documental de apresentações suas no Madison Square Garden nem no Hollywood Bowl, nem de que tenha cantado em alguma Olimpíada; cantou, sim, "Cidade Maravilhosa" e "Aquarela do Brasil" na cerimônia de abertura dos Jogos Pan-Americanos do Rio de 2007. Participou do Criança Esperança da Rede Globo durante 15 anos consecutivos (1992-2007). Embaixadora do UNICEF desde 1995 —segunda personalidade brasileira a receber o cargo, depois de Renato Aragão—, embaixadora do UNAIDS e da UNESCO; fundou o Instituto Sol da Liberdade em 2008, cujo projeto itinerante Caravana da Música alcançou mais de 50.000 crianças e 30.000 docentes. Sobre o gênero: o termo "axé music" foi cunhado pelo jornalista baiano Hagamenon Brito em 1987 com sentido pejorativo; a palavra axé vem do candomblé e significa energia positiva. O hit fundador é "Fricote", de Luiz Caldas (1985), com o ritmo "deboche" criado por Alfredo Moura e Carlinhos Brown e gravado no estúdio WR do bairro da Graça, Salvador; o samba-reggae foi desenvolvido por percussionistas como Neguinho do Samba e Mestre Jackson nos blocos afro Ilê Aiyê, Olodum, Malê Debalê, Muzenza e Ara Ketu. A Lei 15.189/25, de 8 de agosto de 2025, criou o Dia Nacional da Axé Music e o fixou em 17 de fevereiro, data da estreia de "Fricote". Sobre o trio elétrico: nos anos quarenta Dodô (Adolfo Nascimento) e Osmar Álvares Macedo construíram o "pau elétrico", primeiro instrumento de cordas eletrificado sem realimentação; no carnaval de 1950 saíram às ruas de Salvador sobre um Ford de 1929 apelidado "Fobica" como "Dupla Elétrica", dois músicos e não três. O trio se formou em 1951, com uma picape Chrysler Fargo e a incorporação de Temístocles Aragão no "triolim", guitarra tenor eletrificada; em 1952 montavam oito caixas de som e geradores adicionais. O repertório inicial era frevo pernambucano, choro, boleros e pasodoble. Os equipamentos atuais vão de 100 a mais de 500 quilowatts e desde 1992 são montados sobre semirreboques. O bloco que segue o trio se identifica pela cor do abadá e se separa da rua com cordas; o público que dança fora é a pipoca. Dodô morreu em 1978 e Osmar em 1997; seu filho Armandinho mantém o Trio Elétrico Dodô e Osmar, que completou 75 anos em Campo Grande em 2026. Na agenda do Carnaval de Salvador de fevereiro de 2026, publicada em 26 de janeiro de 2026, Mercury desfilou com o bloco "Pipoca da Rainha" nos dias 12 e 17 de fevereiro em Campo Grande e nos dias 13 e 16 no circuito Barra-Ondina, além de outras doze aparições. Em 3 de dezembro de 2005 o padre jesuíta Giuseppe Bellucci, organizador do Concerto de Natal do Vaticano, explicou à Rádio Vaticano que Mercury ficava excluída do evento não por suas convicções sobre os anticoncepcionais, "ainda que não coincidam com as da Igreja católica", mas porque havia anunciado que durante o concerto promoveria abertamente o uso do preservativo contra a aids, em apoio a uma campanha do Ministério da Saúde do Brasil. Em 3 de abril de 2013 anunciou publicamente sua relação com Malu Verçosa em suas redes sociais, notícia de abertura cultural no Jornal Nacional da Rede Globo; o casamento civil foi em 12 de outubro de 2013 em Salvador. A Resolução 175 do Conselho Nacional de Justiça, de 14 de maio de 2013 —42 dias depois do anúncio—, obrigou todos os cartórios do Brasil a celebrar casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo e a converter uniões estáveis em casamento. Em 12 de abril de 2013, nove dias depois do anúncio, Malu Verçosa levou ao ar seu último programa, o "Salto Alto", na rádio CBN, depois de dois anos e meio no ar; a emissora alegou "uma recente reformulação na programação" e não reconheceu relação com o anúncio: o cancelamento é fato de registro e a causalidade, inferência de imprensa. Em 7 de junho de 2026, na Parada LGBTQIAPN+ de São Paulo, Mercury declarou que ao se casar pessoas próximas lhe diziam que ia acabar com sua carreira e que "escolhi pagar para ver". Em outubro de 2025 Mercury e Verçosa saíram em defesa pública da cantora Lauana Prado e de sua namorada depois de ataques homofóbicos nas redes. Em 2006 Mercury se opôs publicamente à reeleição de Lula e negou com veemência a acusação, formulada por Zeca Baleiro, de ter sido favorecida por Antônio Carlos Magalhães; posteriormente precisou que se opõe às reeleições em geral e que havia votado em Lula quatro vezes. Em 1 de maio de 2022 se apresentou na Praça Charles Miller, em São Paulo, num ato do Dia do Trabalho financiado pela prefeitura paulistana com um custo total de R$ 170.000 de dinheiro público, dos quais R$ 100.000 foram para ela; durante a apresentação liderou gritos a favor de Lula e mostrou uma bandeira com o rosto dele. Em 2026 a Justiça de São Paulo aceitou a ação apresentada pelo deputado estadual Gil Diniz, que alega desvio de recursos públicos e qualifica o ato de "showmício" ilegal, e a transformou em ré, junto a Dexter, KL Jay, Mateo Piraces e a produtora contratante; não há sentença, o processo segue aberto —com carta precatória enviada à Bahia para tomar seu depoimento— e a defesa sustenta que não houve irregularidade na contratação e que a manifestação da artista está amparada pela liberdade de expressão. Em 23 de setembro de 2026 participou de um ato de artistas com Lula no Rio de Janeiro e em 6 de outubro de 2026 chamou publicamente a votar no segundo turno. Em 8 de outubro de 2026 a apresentadora Mara Maravilha atacou em suas redes uma fotografia de um beijo entre Ivete Sangalo e Daniela Mercury tirada em 2023; os números de financiamento público que ela afirmou nesse contexto não estão checados e não se recolhem aqui. Não existem dependências, processos criminais nem episódios de violência documentados em sua biografia. Em 30 de junho de 2026 foi anunciado que receberá o Prêmio à Excelência Musical (Lifetime Achievement Award) do Latin Grammy no 27º Latin Grammy, junto a Alaska, Francisco Céspedes, Lila Downs e Chichí Peralta, na cerimônia de 12 de novembro de 2026. A turnê Cirandaia Eurotour de julho e agosto de 2026 compreendeu 11 shows em 5 países: Arronches (11 de julho), Porto (12), Barcelona (17), Hamburgo (18), Berlim (19), Munique (21), Coblença (24), WOMAD no Reino Unido (25), Amsterdã (27), Olhão (15 de agosto) e Alcobaça (23 de agosto). Perfil elaborado para a Rebobinados com verificação de dados; as interpretações sobre o sentido de sua obra são oferecidas como leitura do autor. Não se reproduzem letras de canções por direitos autorais. Dados recolhidos da Wikipédia em português, Wikipédia em inglês, do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, do arquivo da Rádio Vaticano, da base de shows do Montreux Jazz Festival, setlist.fm, Sesc São Paulo, iBahia, Alô Alô Bahia, Anota Bahia, bahia.ba, Jornal Correio, Correio Braziliense, Jornal de Brasília, Diário 24 Horas, Farofafá, G1, Terra e Mixvale.

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