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Enigma

O mesmo erro duas vezes

Por Rebobinados · Publicado em 10 de outubro de 2026

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Enigma: O mesmo erro duas vezes

Ilustración: Rebobinados

O Enigma não é uma banda, e a frase que diz isso melhor não é dele: "Enigma is not a band — it is a project undertaken by one person", lê-se na FAQ do The Enigma Archives, o arquivo de fãs que Gavin Stok mantém desde 1995. A pessoa é Mihai Crețu, germanizado como Michael Cretu, nascido em Bucareste em dezoito de maio de 1957. O relato popular lhe concede uma única briga judicial, a dos cantores taiwaneses de "Return to Innocence", que reclamaram seu crédito e acabaram obtendo-o. O que o relato não conta é que essa foi a segunda. A primeira havia sido encerrada anos antes, pelo mesmo motivo e com desculpa pública de sua gravadora incluída, de modo que a lição que se atribui ao caso taiwanês já lhe havia sido dada. Cretu cometeu o mesmo erro conceitual duas vezes, com três anos de diferença, e a distinção jurídica que o explica cabe em uma frase: o repertório era de domínio público, a gravação não.

Bucareste, Ibiza e um gregoriano que ele já havia testado

O ofício vinha de antes e de longe. Piano desde os cinco anos e meio; em 1965 entra no liceu de música de Bucareste; em 1968, cinco meses de estudo em Paris; em 1975, aos dezoito, deixa a Romênia e se instala em Bad Homburg, na Alemanha Ocidental; em 1978 se forma em composição na Academia de Música de Frankfurt, com distinções. O que vem depois foi trabalho de estúdio: teclados e arranjos em produções de Frank Farian, material do Boney M. incluído; três álbuns próprios, Moon, Light & Flowers em 1979, Legionäre em 1983 e Die Chinesische Mauer em 1985; a cofundação do Moti Special em 1981; seu primeiro prêmio de ouro como produtor em 1980; a coprodução de Islands, de Mike Oldfield, em 1987, e foi Oldfield, segundo a própria casa, quem o animou a montar algo seu. E, sobretudo, a carreira de Sandra Ann Lauer: ele produziu para ela "(I'll Never Be) Maria Magdalena", seu primeiro número um internacional, em 1985, e terminou casado com ela.

A fórmula do Enigma também não apareceu do nada. Cretu já havia colocado canto gregoriano sobre uma base pop três anos antes, em "Everlasting Love", de Sandra. No primeiro álbum trabalhou Frank Peterson, creditado como F. Gregorian, que foi embora ao terminá-lo e fundou o Gregorian, um projeto com a mesma receita; e em 1992 o Deep Forest faria o mesmo com acervos sonoros africanos e sul-americanos. Dizer que o Enigma juntou o que ninguém havia juntado não se sustenta. O que sim se sustenta é mais preciso e não é menos mérito: foi o primeiro a levar essa mistura ao número um em escala planetária, e quem lhe fixou a gramática.

"Sadeness (Part I)" saiu em primeiro de outubro de 1990, e o título é um jogo de palavras que quase ninguém desmonta: alude ao Marquês de Sade, Donatien Alphonse François de Sade, e a letra o interroga. A ideia foi de Cretu e de seu empresário, Jürgen Thürnau. Os sussurros em francês são de Sandra. No Reino Unido e na Austrália o single foi editado com o título trocado para "Sadness Part 1", porque as gravadoras preferiram a grafia do dicionário. Foi número um em catorze países —Alemanha, Reino Unido, França, Áustria e Suécia entre eles—, número cinco da Billboard Hot 100 e número um de Dance Club Play nos Estados Unidos, com mais de cinco milhões de cópias vendidas. O álbum, MCMXC a.D., chegou ao número um britânico e ao número seis da Billboard 200, onde ficou duzentas e sessenta e duas semanas segundo a contagem da Wikipedia: mais de cinco anos na lista.

O coro de Munique reconheceu a própria voz

O canto gregoriano de "Sadeness" e de "Mea Culpa" não era uma gravação feita para o disco. Havia sido registrado na Baviera entre sete e nove de janeiro de 1976, pelo coro Capella Antiqua München sob a direção de Konrad Ruhland, e a faixa mais reconhecível é a antífona "Procedamus in pace!". O coro se ouviu a si mesmo em um sucesso mundial e foi aos tribunais.

Aqui está a distinção que vale o artigo inteiro. O coro não podia processar por direitos autorais, porque o repertório gregoriano é de domínio público: ninguém é dono de um canto litúrgico medieval. Processou por direito da personalidade, o Persönlichkeitsrecht alemão, alegando que Cretu havia deformado suas vozes, que o grupo se sentia pessoalmente ofendido pelo mau uso de seu trabalho, e exigindo, além de dinheiro, uma desculpa por escrito. A prova técnica foi explicada pelo advogado da BMG/Ariola, Christian Klein: cada voz humana tem características próprias que não se podem reproduzir com exatidão, e de uma análise de frequências sai um gráfico que é quase como uma impressão digital. O domínio público cobria a obra. Não cobria as pessoas que a havia cantado, nem os donos das fitas.

O acordo foi fechado fora dos tribunais e se soube por uma via curiosa: o advogado da Polydor, Stefan Belfert, o revelou em um seminário do POPKOMM em vinte e quatro de agosto de 1991, e a Billboard o publicou em catorze de setembro. O grosso do dinheiro foi para o coro pelo dano à sua personalidade; somas menores, para a Polydor e para a BMG/Ariola pelo uso não autorizado dos masters. A Virgin se desculpou oficialmente com os artistas originais e licenciou as fitas a posteriori. Há um detalhe de propriedade que quase ninguém conta: o que foi sampleado em "Mea Culpa" era do coro, enquanto os direitos mundiais do que foi usado em "Sadeness" pertenciam à BMG/Ariola, de modo que o gregoriano do disco não saía de um só lugar. E convém dizer o que aquilo foi exatamente: um acordo, não uma sentença. Nenhum juiz declarou ninguém culpado.

Pelos mesmos meses se desmontou o outro gancho do projeto, o anonimato, que durou semanas e não anos. Enquanto os jornalistas atribuíam "Sadeness" a Mike Oldfield ou a Alan Parsons, duas pessoas de Frankfurt processaram a gravadora de Cretu alegando que lhes havia roubado a ideia de cruzar gregoriano com grooves de hip hop. Perderam, e ao perder destaparam os nomes de Michael Cretu e de Sandra. Este episódio tem de ser contado com a cautela que merece: quem o sustenta é a imprensa musical da época e o arquivo de seguidores do projeto, não um processo judicial. Mesmo assim, Cretu seguiu assinando como Curly M.C.

Uns amigos a reconheceram no rádio

The Cross of Changes foi lançado em seis de dezembro de 1993, gravado nos A.R.T. Studios de Ibiza —estúdio e casa ao mesmo tempo—, com sete meses de produção e um milhão e quatrocentos mil pedidos antecipados. Uma semana depois, em treze de dezembro, saiu "Return to Innocence". A canção que todo mundo lembra como a mais sua é, por dentro, uma montagem de peças alheias: os primeiros oito segundos são apenas um canto tradicional taiwanês, que reaparece ao longo de mais da metade do tema; a voz solista masculina é de Andreas Harde, um cantor de Munique de vinte e seis anos creditado como Angel; e a bateria é um sample do break de "When the Levee Breaks", do Led Zeppelin. O que é de Cretu é a montagem, que não é pouco: número três no Reino Unido, número quatro da Hot 100 e número um em mais de doze países.

O canto é de um casal. Difang Duana, de nome chinês Kuo Ying-nan, agricultor e cantor tradicional, e sua esposa Igay Duana, Kuo Hsiu-chu, do povo amis da região de Taitung, em Taiwan. A peça é uma composição tradicional amis do tipo palang, "Sapiliepah a Radiw", que as diferentes edições traduzem de três maneiras distintas: "Elders' Drinking Song", "Jubilant Drinking Song" e "Weeding and Paddyfield Song No. 1". Cretu sampleou um CD publicado por uma instituição do Estado francês que apresentava o canto como anônimo; a gravação vinha de uma campanha de registro etnomusicológico em que os Kuo cantaram para que sua cultura ficasse documentada, não para que alguém a vendesse.

O que vem a seguir foi dito por seu advogado e é o coração de tudo isso: os Kuo fizeram essa gravação apenas com fins de preservação cultural, em nenhum momento deram permissão a ninguém para comercializar sua canção e não ficaram sabendo do que havia acontecido até que uns amigos reconheceram suas vozes no disco e os cumprimentaram. Dito sem advogados: um casal de idosos de Taitung soube que sua voz abria um sucesso planetário porque alguém a ouviu no rádio.

Processaram no Tribunal Federal do Distrito Central da Califórnia. A lista de réus cresceu até uns vinte —Cretu, Enigma, Capitol-EMI Music, Charisma Records of America, Mambo Music, Virgin Schallplatten, Sony Music Group, Virgin Records America— e entre eles estava o Comitê Olímpico Internacional. O escritório que os representou, Oppenheimer Wolff & Donnelly, aceitou o caso por percentual, coisa incomum na firma, e seu sócio E. Patrick Ellisen explicou por quê: o que viam ali era a repetição, em escala internacional, do que havia acontecido nos Estados Unidos no fim dos anos cinquenta e nos sessenta, quando as gravadoras basicamente roubavam canções de rhythm and blues de artistas negros às vezes empobrecidos e pouco experimentados e as transformavam em grandes sucessos, sem reconhecimento e com uma recompensa mínima ou nula para os criadores. Acrescentou que, quando os Kuo se dirigiram a Cretu e às gravadoras, responderam-lhes em essência que, como não são ricos nem famosos, não há nada que possam fazer para proteger seus direitos.

A audiência foi em Los Angeles em quatro de março de 1999. Os advogados da Capitol-EMI sustentaram que os Kuo não podiam reclamar a propriedade do que era uma canção folclórica tradicional, e assim ficou colocado o fundo da questão: se uma cultura oral pode ser dona de seu repertório. Cretu, por sua parte, declarou acreditar que a gravação estava em domínio público e não ter infringido nada conscientemente, que é exatamente a defesa que havia caído em 1991. Em vinte e três de junho de 1999 as partes acordaram fora do tribunal: soma não revelada, crédito aos Duana em todas as edições posteriores, royalties e discos de platina. Com parte do dinheiro o casal montou uma bolsa para crianças amis. Também aqui houve acordo e não sentença.

Não foi o hino de Atlanta, foi o anúncio

O remate olímpico é contado errado em todas as partes. "Return to Innocence" não foi o hino dos Jogos de Atlanta 1996. A canção oficial foi "Reach", de Gloria Estefan, coescrita com Diane Warren e interpretada na cerimônia de encerramento; o tema oficial foi "Summon the Heroes", de John Williams, instrumental, com a Orquestra Sinfônica de Atlanta; e Celine Dion cantou "The Power of the Dream" na abertura. O do Enigma foi a música da campanha promocional: toca no anúncio de televisão dos Jogos e entrou no CD comemorativo. A nota de imprensa do escritório dos Kuo sim escreve que o Comitê Olímpico Internacional a adotou como canção tema, mas essa é linguagem de parte demandante. E a ironia não se perde por sermos precisos, ao contrário: o Comitê Olímpico Internacional terminou no banco dos réus como corréu por usar, na campanha de uns Jogos, uma gravação tomada sem permissão de dois idosos de um povo indígena.

Há além disso uma assimetria que convém nomear. Em 1991 a Virgin se desculpou publicamente. No caso amis não existe nenhuma desculpa pública de Cretu documentada: o único que fica em ata é sua declaração de que acreditava que a gravação era de domínio público. Quase não dá entrevistas, nunca fez uma turnê e nunca concedeu uma entrevista extensa sobre o assunto. E o crédito aos dois discos etnográficos que constava na primeira tiragem europeia de The Cross of Changes desapareceu, segundo o arquivo do próprio projeto, nas reedições posteriores e no box Trilogy.

Os demandantes chegaram a ter seus anos bons. Difang publicou Circle of Life em 1998, produzido por Dan Lacksman, o do Deep Forest, o projeto com o qual o Enigma era comparado precisamente pelo mesmo motivo; depois veio Across the Yellow Earth, premiado como Melhor Álbum de Música Étnica na décima primeira edição dos Golden Melody Awards. Difang morreu em vinte e nove de março de 2002, de septicemia, depois de sua saúde se deteriorar a partir da picada de uma centopeia venenosa em outubro de 2001 e com um diabetes de anos nas costas; a deputada May Chin o chamou de "tesouro nacional". Igay morreu em dezesseis de maio do mesmo ano, de câncer de mama. O Enigma, entretanto, caía: do número um britânico dos dois primeiros álbuns ao número doze de Le Roi est mort, vive le Roi! em 1996 e ao número cento e vinte e dois da Billboard 200 de The Fall of a Rebel Angel em 2016, oitavo e último até hoje.

O que é preciso lembrar

O Enigma vendeu cerca de setenta milhões de discos e acumulou mais de cem certificações de ouro e platina com uma fórmula que consistia, no essencial, em montar gravações alheias sobre um ritmo de dança. Duas dessas gravações estavam tomadas sem permissão, e as duas acabaram em processo. A primeira, pelos cantos gregorianos de "Sadeness": acordo fechado em agosto de 1991, desculpa pública da Virgin e licença retroativa das fitas. A segunda, pelo canto amis de "Return to Innocence", single de dezembro de 1993: acordo em vinte e três de junho de 1999, com crédito permanente, royalties e discos de platina para Difang e Igay Duana. Entre a lição e a reincidência passaram três anos.

O que é preciso guardar é a distinção jurídica, porque é a que quase ninguém faz. O repertório gregoriano era de domínio público e o canto amis era uma peça tradicional sem autor conhecido; as gravações concretas, em troca, tinham dono, e atrás de cada uma havia pessoas com uma voz própria e irrepetível —isso foi literalmente o que um advogado demonstrou com uma análise de frequências em 1991—. O direito alemão o explicou a Cretu pela via do direito da personalidade, e um tribunal federal da Califórnia voltou a colocar-lhe a questão três anos depois, com outro povo e o mesmo problema. Nenhum dos dois casos chegou a sentença: os dois se fecharam com acordo, e dos dois saiu o mesmo reconhecimento tardio.

Fica, além disso, o que nenhum acordo devolve. Dois idosos amis de Taitung que haviam cantado para que sua cultura ficasse documentada ficaram sabendo que sua voz abria um sucesso mundial porque uns amigos a ouviram no rádio, e tiveram de chegar até um tribunal de Los Angeles —com o Comitê Olímpico Internacional sentado entre os réus— para que aparecesse seu nome no disco. Quando soarem aqueles primeiros oito segundos de "Return to Innocence", antes de entrar a bateria emprestada e a voz de Munique, aí está o único que de verdade se ouve: Difang e Igay Duana cantando, sem saber, para o mundo inteiro.


Fontes

O Enigma é um projeto musical alemão fundado em 1990 por Michael Cretu; não é uma banda, mas um projeto solo com colaboradores contratados. A formulação "Enigma is not a band — it is a project undertaken by one person" vem da FAQ do The Enigma Archives (enigma-music.com), site de fãs criado e mantido por Gavin Stok desde meados de 1995 —chamou-se "The Official Enigma World Wide Web Site" até dezembro de 1997— e não é uma declaração do próprio projeto nem de Cretu. Michael Cretu, de nome real Mihai Crețu e creditado também como Curly M.C., nasceu em 18 de maio de 1957 em Bucareste, Romênia, de pai romeno e mãe austríaca; está vivo. Estudou piano desde os 5 anos e meio, ingressou em 1965 no liceu de música de Bucareste, estudou 5 meses em Paris em 1968, deixou a Romênia em 1975 aos 18 anos para se instalar em Bad Homburg (Alemanha Ocidental) e se formou em composição na Academia de Música de Frankfurt em 1978. Antes do Enigma foi músico de estúdio e arranjador para Frank Farian (material do Boney M. incluído), publicou "Moon, Light & Flowers" (1979, Polygram), "Legionäre" (1983, Virgin) e "Die Chinesische Mauer" (1985, com versão em inglês como "The Invisible Man"), cofundou o Moti Special em 1981, obteve seu primeiro prêmio de ouro como produtor em 1980, coproduziu "Islands", de Mike Oldfield (1987), e produziu Sandra, incluído seu primeiro nº 1 internacional, "(I'll Never Be) Maria Magdalena" (1985). Casado com Sandra Ann Lauer (n. 18 de maio de 1962, o mesmo dia do ano que ele); a data do casamento difere entre fontes: 7 de janeiro de 1988 segundo a Wikipedia, 7 de fevereiro de 1988 segundo The Enigma Archives. Filhos gêmeos nascidos em julho de 1995; divórcio em novembro de 2007. World Music Award 2002 ao artista alemão mais vendido e 2 indicações ao Grammy, uma delas a Melhor Álbum New Age por "Le Roi est mort, vive le Roi!" na cerimônia de 25 de fevereiro de 1998. Colaboradores: Frank Peterson (samples, produção e engenharia apenas no primeiro álbum, creditado como F. Gregorian; depois fundou o Gregorian), David Fairstein (letras), Sandra Cretu (vozes nos quatro primeiros álbuns; não creditada em "MCMXC a.D."; afastada da música em 1998), Andreas Harde "Angel"/"Angel X" (voz solista masculina de "Return to Innocence"), Jens Gad, Peter Cornelius, Louisa Stanley, Ruth-Ann Boyle, Elizabeth Houghton e Andru Donalds; empresário, Jürgen Thürnau. "Sadeness (Part I)" foi publicado em 1 de outubro de 1990 (Virgin): nº 1 em 14 países, entre eles Alemanha, Reino Unido, França, Áustria e Suécia; nº 1 no Reino Unido na semana de 13 de janeiro de 1991, uma semana no topo e 12 na lista depois de entrar em 15 de dezembro de 1990; nº 5 da Billboard Hot 100 e nº 1 de Dance Club Play nos EUA; platina na Alemanha e na Suécia; mais de 5 milhões de cópias segundo a ficha do single (mais de 7 milhões segundo a do álbum). O título é um jogo de palavras com o Marquês de Sade (Donatien Alphonse François de Sade, 1740-1814), idealizado por Cretu e Jürgen Thürnau; os sussurros em francês são de Sandra; no Reino Unido e na Austrália foi editado como "Sadness Part 1". O álbum "MCMXC a.D." saiu em 3 de dezembro de 1990 na Europa segundo a ficha do álbum —a discografia da Wikipedia dá 10 de dezembro— e em 12 de fevereiro de 1991 nos EUA (Charisma): nº 1 no Reino Unido, nº 3 na Alemanha, nº 6 da Billboard 200; 262 semanas na Billboard 200 segundo a Wikipedia e 282 segundo a uDiscover Music; 4× platina RIAA (certificação de 19 de maio de 1999), 3× platina no Reino Unido, 2× platina na Alemanha, Austrália e Suíça; cerca de 12 milhões de cópias mundiais por volta de 1994. O canto gregoriano usado em "Sadeness (Part I)" e "Mea Culpa" foi gravado na Baviera entre 7 e 9 de janeiro de 1976 pelo coro Capella Antiqua München, dirigido por Konrad Ruhland (dado de uma carta de Thürnau e Cretu de março de 1995); a faixa mais reconhecível é a antífona "Procedamus in pace!". O disco de origem está em disputa: a Wikipedia aponta "Paschale Mysterium" (datado de 1976 em uma entrada e de 1977 em outra), os créditos do box "Trilogy" (1998) citam "Gregorianische Gesänge" e "Paschale Mysterium", e o FAQ de The Enigma Archives sustenta que, depois da ação legal, se determinou que o grosso vinha do CD "Die Gregorianischen Gesänge" (Philips Alemanha, ref. 426 838-2). O coro Capella/Kapelle Antiqua München processou Michael Cretu e a Virgin Germany não por copyright —o repertório gregoriano é de domínio público— e sim por direito da personalidade (Persönlichkeitsrecht), alegando deformação de suas vozes e exigindo compensação econômica e uma desculpa por escrito; a Polydor Germany e a BMG/Ariola, titulares dos masters, também reclamaram. O advogado da BMG/Ariola, Christian Klein, sustentou a prova na análise de frequências da voz humana, comparável a uma impressão digital. Provou-se que o que foi sampleado em "Mea Culpa" era do coro e que os direitos mundiais do que foi usado em "Sadeness (Part I)" pertenciam à BMG/Ariola. O acordo extrajudicial —compensação econômica, desculpa oficial da Virgin e licença retroativa dos masters— foi revelado pelo advogado da Polydor, Stefan Belfert, em um seminário do POPKOMM em 24 de agosto de 1991, e a "Billboard" o publicou em 14 de setembro de 1991. Foi um acordo, não uma sentença. A Wikipedia data esse litígio em 1994, o que é tardio e errado. O anonimato do projeto durou semanas: dois particulares de Frankfurt processaram a gravadora de Cretu alegando plágio da ideia de cruzar canto gregoriano com grooves de hip hop, perderam, e o procedimento destapou os nomes de Michael Cretu e Sandra; este episódio consta unicamente em imprensa musical traduzida ("Enigma — The Answer", Music Mag, janeiro de 1994) e no arquivo de The Enigma Archives, sem documento judicial. "The Cross of Changes" foi publicado em 6 de dezembro de 1993 (Virgin; Charisma nos EUA), creditado a "Enigma 2", gravado nos A.R.T. Studios de Ibiza com 7 meses de produção e 1,4 milhão de pedidos antecipados: nº 1 no Reino Unido (entrada em 19 de fevereiro de 1994, 52 semanas), nº 5 na Alemanha, nº 9 da Billboard 200; 2× platina nos EUA, Reino Unido, Austrália e Canadá; cerca de 8 milhões mundiais e mais de 2 milhões nos EUA. O single "Return to Innocence" foi publicado em 13 de dezembro de 1993: nº 3 no Reino Unido (entrada em 29 de janeiro de 1994, 14 semanas), nº 4 da Billboard Hot 100, nº 2 de Modern Rock Tracks, nº 1 na Irlanda, Israel, Noruega, Suécia e Zimbábue, nº 1 em mais de doze países e ouro nos EUA; videoclipe dirigido por Julien Temple. Sua voz solista masculina é de Andreas Harde, de Munique, 26 anos então, creditado como Angel; Sandra faz os backing vocals; os primeiros 8 segundos são apenas o canto amis, que reaparece ao longo de mais da metade do tema; a bateria é um sample do break de "When the Levee Breaks", do Led Zeppelin, o mesmo que Cretu havia usado no remix "Fading Shades" de "Mea Culpa". Os intérpretes do canto são Difang Duana, nome chinês Kuo Ying-nan (20 de março de 1921 – 29 de março de 2002, septicemia depois da picada de uma centopeia venenosa em outubro de 2001 agravada por um diabetes de anos), agricultor e cantor tradicional, e sua esposa Igay Duana, nome chinês Kuo Hsiu-chu (9 de agosto de 1922 – 16 de maio de 2002, câncer de mama), do povo amis da região de Taitung, Taiwan. A peça é uma composição tradicional amis do tipo palang, "Sapiliepah a Radiw", traduzida de três maneiras segundo a edição: "Elders' Drinking Song", "Jubilant Drinking Song" e "Weeding and Paddyfield Song No. 1". A origem da gravação tem versões em conflito: o relato dominante a situa em 1988 em Paris, no festival de dança e música indígena da Ásia-Pacífico organizado pelo etnomusicólogo Hsu Tsang-houei e registrada pela Maison des cultures du monde, instituição do ministério francês, publicada como material anônimo no CD "Polyphonies vocales des aborigènes de Taïwan"; a nota de imprensa do escritório dos Kuo a data "provavelmente em 1978 ou 1979", a cargo do próprio Hsu Tsang-houei, com publicação em um álbum do Chinese Folk Art Foundation reeditado anos depois na França. O que não está em disputa é que os Kuo cantaram com fins de preservação cultural, que nunca autorizaram ninguém a comercializar a gravação e que souberam do sucesso porque uns amigos reconheceram suas vozes. Kuo Ying-nan e Kuo Hsiu-chu processaram no U.S. District Court, Central District of California; as datas de apresentação divergem entre fontes, por isso aqui só se afirma o ano do acordo. Réus iniciais: Michael Cretu, Enigma, Capitol-EMI Music, Charisma Records of America, Mambo Music, Virgin Schallplatten e o Comitê Olímpico Internacional; a ação foi ampliada até 20 réus, entre eles Sony Music Group e Virgin Records America, segundo a nota de imprensa do escritório de 28 de dezembro de 1998. Escritório demandante: Oppenheimer Wolff & Donnelly, sede de San José, com o sócio E. Patrick Ellisen e o associado Emil C. Chang, a pedido da advogada taiwanesa Huang Hsiu-lan, aceitando o caso por percentual. Audiência em Los Angeles em 4 de março de 1999. Acordo extrajudicial anunciado em 23 de junho de 1999 num comunicado conjunto da Virgin Records e do casal Kuo divulgado pela Business Wire —"Taiwanese Settle Lawsuit Claiming Their Original Composition Was Stolen; They Will Now Set Up Foundation"—, embora a literatura acadêmica (Nancy Guy, "Trafficking in Taiwan Aboriginal Voices", 2002) o date genericamente em julho: soma não revelada, crédito aos Duana em todas as edições posteriores, royalties e discos de platina; com parte do dinheiro o casal criou uma bolsa para crianças amis. Foi um acordo, não uma sentença. Os advogados da Capitol-EMI sustentaram que os Kuo não podiam reclamar a propriedade de uma canção folclórica tradicional; Cretu declarou acreditar que a gravação estava em domínio público e não ter infringido direitos conscientemente. Os termos econômicos do acordo são confidenciais e não se conhecem cifras verificáveis de divisão de royalties nem de pagamentos prévios pelo uso da gravação. "Return to Innocence" não foi o hino dos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996: a canção oficial foi "Reach", de Gloria Estefan, coescrita com Diane Warren e interpretada no encerramento; o tema oficial foi "Summon the Heroes", de John Williams, instrumental, com a Orquestra Sinfônica de Atlanta; Céline Dion cantou "The Power of the Dream" na abertura. "Return to Innocence" foi a música da campanha promocional dos Jogos —figura na Wikipedia como "Promotional Video Theme Song" de Atlanta 1996—, soou no anúncio de televisão e entrou no CD comemorativo; que o COI a "adotasse como canção tema" é afirmação da parte demandante, e o COI foi um dos réus. O crédito a "Polyphonies vocales des aborigènes de Taïwan" e a "Mongolia Musique Vocale et Instrumentale" figura na primeira tiragem europeia de "The Cross of Changes" e não nas reedições posteriores nem no box "Trilogy", segundo The Enigma Archives. Não há desculpa pública de Cretu documentada no caso amis; a desculpa de 1991 foi emitida pela Virgin. Difang publicou "Circle of Life" em 1998, produzido por Dan Lacksman, do Deep Forest (Rock Records; ref. japonesa RCCA-2013), e "Across the Yellow Earth" (as fontes dão 1999 e 2001), Melhor Álbum de Música Étnica nos 11.º Golden Melody Awards; a deputada May Chin chamou Difang de "tesouro nacional". Resto da discografia do Enigma: "Le Roi est mort, vive le Roi!" (20 de novembro de 1996; nº 3 Alemanha, nº 12 Reino Unido, nº 25 Billboard 200, platina nos EUA), "The Screen Behind the Mirror" (14 de janeiro de 2000; nº 2 Alemanha, nº 7 Reino Unido, nº 33 Billboard 200), a coletânea "LSD: Love Sensuality Devotion — Greatest Hits" (novembro de 2001, nº 29 Reino Unido), "Voyageur" (30 de setembro de 2003; nº 6 Alemanha, nº 46 Reino Unido, nº 94 EUA; último álbum com vozes de Sandra), "A Posteriori" (22 de setembro de 2006; nº 16 Alemanha, nº 95 EUA), "Seven Lives Many Faces" (19 de setembro de 2008; nº 15 Alemanha, nº 92 EUA) e "The Fall of a Rebel Angel" (11 de novembro de 2016; nº 10 Alemanha, nº 40 Reino Unido, nº 122 EUA), oitavo e último até outubro de 2026, sem disco novo anunciado. Vendas totais do Enigma: cerca de 70 milhões de discos e mais de 100 certificações de ouro e platina; as produções de Cretu somam cerca de 100 milhões. Perfil elaborado para a Rebobinados com verificação de dados; as interpretações sobre o sentido de sua obra são oferecidas como leitura do autor. Não se reproduzem letras de canções por direitos autorais. Dados recolhidos da "Billboard" (Ellie Weinert, "'Sadeness' Creator Settles Sample Suit", 14 de setembro de 1991), da nota de imprensa de Oppenheimer Wolff & Donnelly via Entertainment Wire (San José, 28 de dezembro de 1998), do comunicado conjunto da Virgin Records e do casal Kuo pela Business Wire (23 de junho de 1999), da "Music Mag" ("Enigma — The Answer", janeiro de 1994, tradução de Hartmut Keller), do "Taipei Times" (30 de março de 2002), dos FAQ e do arquivo de notícias de The Enigma Archives, da Official Charts Company, da RIAA, da uDiscover Music, do insidethegames, do site oficial do projeto e da Wikipedia.

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